Kátia Abreu rebate Ernesto: ‘Brasil não pode mais ter a face de um marginal’

Ministro sugeriu que pressão do Congresso para retirá-lo deve-se a negociações sobre tecnologia 5G e citou reunião com senadora; Ela afirmou que ele “faltou com a verdade”

BRASÍLIA – A senadora Kátia Abreu (PP-TO), presidente da Comissão de Relações Exteriores da casa, reagiu à declaração do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, que neste domingo disse que a pressão que sofre no Congresso é por interesses relacionados à tecnologia 5G e não por causa das vacinas contra a covid-19. A parlamentar, em uma nota divulgada à imprensa, disse que o Brasil não mais ter “a face de um marginal” e voltou a pressionar pela saída do ministro.

“O Brasil não pode mais continuar tendo, perante o mundo, a face de um marginal. Alguém que insiste em viver à margem da boa diplomacia, à margem da verdade dos fatos, à margem do equilíbrio e à margem do respeito às instituições. Alguém que agride gratuitamente e desnecessariamente a Comissão de Relações Exteriores e o Senado Federal”, escreveu a senadora. 

Em uma publicação no Twitter, o chanceler sugeriu que a pressão do Congresso para sua demissão não teria ligação com questões diplomáticas em torno da obtenção de vacinas contra a Covid-19, mas sim com o debate sobre o banimento ou não da empresa chinesa Huawei da implantação da tecnologia 5G no Brasil. 

Araújo afirmou ter sido procurado pela presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, Kátia Abreu (PP-TO), no início do mês e que “pouco ou nada se falou de vacina”. Em artigo neste domingo no GLOBO, a senadora aborda a necessidade de apoio internacional para conseguir lidar com a pandemia e afirma que o Itamaraty tem hoje uma “arrogância subalterna”.

“Em 4/3 recebi a Senadora Kátia Abreu para almoçar no MRE. Conversa cortês. Pouco ou nada falou de vacinas. No final, à mesa, disse: “Ministro, se o senhor fizer um gesto em relação ao 5G, será o rei do Senado.” Não fiz gesto algum. Desconsiderei a sugestão inclusive porque o tema 5G depende do Ministério das Comunicações e do próprio Presidente da República, a quem compete a decisão última na matéria”, publicou Ernesto Araújo.

Kátia Abreu disse, na nota, que “é uma violência resumir três horas de um encontro institucional a um tuíte que falta com a verdade. Em um encontro institucional, todo o conteúdo é público.” Ela disse ter defendido na conversa que os certames licitatórios “não podem comportar vetos ou restrições políticas”, ao falar sobre 5G, e ressaltou, na nota, que já falou abertamente sobre esse tema na imprensa.

A senadora disse que ainda alertou o chanceler dos prejuízos que um veto à China na questão poderia causar às exportações, especialmente ao agronegócio.  “Defendi também que a questão do desmatamento na Amazônia deve ser profundamente explicada ao mundo no contexto da negociação para evitar mais danos comerciais ao Brasil”, escreveu.

“Se um Chanceler age dessa forma marginal com a presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado da República de seu próprio país, com explícita compulsão belicosa, isso prova definitivamente que ele está à margem de qualquer possibilidade de liderar a diplomacia brasileira.  Temos de livrar a diplomacia do Brasil de seu desvio marginal.”, finalizou Kátia, na nota.

Fonte O Globo

[ESPECIAL] NEM VIREI JACARÉ | Por Felix Araújo Filho

Mundo velho das mesmas coisas. Remoer em casa o repetitivo mover-se dos ponteiros, que coisa mais entediante. Os meses têm sido um de cá pra lá, aqui mesmo e sem fim. Não gosto disso. Não gosto nada de andar em círculos, em volta de coisa nenhuma.

Hoje, contudo, foi diferente. Ainda bem! Chegou o dia da minha  esperada vacinação. Quem diria!

Não há como narrar a felicidade de acordar pelas seis e quinze da manhã e dar “pause” em Waldick que, indiferente a essas ansiedades terrestres, desde a madruga ainda cantava “Tortura de Amor”. E pus termo ao recital, justo quando o inolvidável Durango Kid da boemia brega melodiava “e a minh’ alma esperava por ti. / Apareceste afinal, / torturando este ser que te adora”.

Juro que repeti a estrofe. Repeti que repeti, bem alto com o coração “de rodillas” aos pés da minha amada chinesa. Era o fim da longa vigília, do fastio que tanto torturara este ser que te adora. Mas, apareceste afinal, CoronaVac! Minh’ alma esperava por ti.

É verdade, doce chinesinha, que em toda essa cruel espera ardi de ciúmes. Ciúme e desejo; desejo e medo. Por isto, colei os olhos do meu isolamento na liberdade dos teus passos. Sofri em silêncio. Quase perdi a razão, quando vi aqueles cientistas fantasmais, metidos em armaduras de plástico, com longas pipetas e luvas enormes a tocar, em salas fechadas, a beleza transparente e protetora do teu corpo líquido.

Vê-la manipulada por estranhos e nada poder fazer para arrebatá-la, quase me fez enlouquecer. Os meus impulsos interiores foram violentos, aterradores. Quis até fazer arminha, deixar-me fotografar sorrindo com metralhadoras estúpidas e ameaçar o mundo inteiro com um também contagioso e repugnante AI-5. Alucinado, pensei em formar milícias, fechar o STF, privatizar a Petrobras, inocentar juiz e procuradores desonestos, tudo isso por puro ciúme de ti. Quase chamei um ministro diarista para ordenar a deportação desses cientistas esquerdopatas para os confins da terraplana, lá deixá-los num lugar infestado de piolhos e passarinhos transmissores.

De fato, minha princesa da Grande Muralha, à espera, consumido pelo ciúme, cogitei sobre todas essas diabruras. Tomado pelo desejo de ter o teu corpo no meu, vi-me tantas vezes sem oxigênio, sufocado na logística idiota de um leito de leite condensado. Que horror!

Então, no confinamento, veio o pior. Veio o medo. Noticiou-se que tu, CoronaVac, eras uma dessas bruxas disfarçadas de progresso, uma víbora diabólica oculta em meio à esperança do povo. Segundo a voz charlatã por muitos acreditada, o preço para quem tomasse a feiticeira nos braços seria uma monstruosa mutação reptiliana. “Se tomar, vira jacaré”. Deus nos acuda!  

Não acreditei na praga crocodiliana. Queria a vacina. Mas, sempre, sempre um duvidar transpira afoito. Inquieta e às vezes turva a mirada dos mais duros céticos. Será? Fui mesmo assim.

O caminho para o local de vacinação estava calmo. As goiabeiras pareciam goiabeiras. Nas calçadas, caminhavam distanciados e em silêncio matinal Emílio Ribas, Vital Brazil, Osvaldo Cruz, Carlos Chagas com as suas máscaras e bisnagas de álcool em gel 70. Sem relutância, acionei o GPS na direção da ciência e do SUS e prossegui. Num piscar de olhos, ela estava comigo, indelevelmente presa ao meu braço.   

Voltamos, então. Agora, cheios de alegria, de cidadania e de esperança. Ali, não mais ouvíamos uivos genocidas nem mentiras relinchantes. Recobria-nos um estado de serenidade e coragem, coisas sempre necessárias ao cidadão, em especial no momento dos grandes enfrentamentos. Foi aí que me dei conta de que não virei jacaré.


Felix Araújo Filho – é advogado criminalista, orador, poeta, intelectual, conferencista e professor de Direito Penal. Foi político brasileiro, Prefeito da cidade de Campina Grande, de 1º de janeiro de 1993 até 1º de janeiro de 1997. Também foi Vereador deste município, por duas legislaturas, durante os anos de 1983 a 1992, tendo sido presidente da Câmara por duas vezes.

Texto enviado através do convite da Colaboradora do Gabinete Paraíba, Gabriela do Ó.